Bem antes de Santos-Dumont realizar seus primeiros vôos no 14-BIS, decolando e pousando por seus próprios meios, em demonstrações públicas no Campo de Bagatelle, Paris, entre 23 de outubro e 12 de novembro de 1906, confidenciava ele aos fabricantes de material e de motores, membros da Sociedade de Engenheiros Civis do Aeroclube de França e da Academia de Ciências de Paris, o importante papel que os dirigíveis e aviões seriam chamados a desempenhar, em futuro breve, logo nas primeiras décadas do século XX, recomendando, assim, a criação de instituições de ensino de aerodinâmica, de materiais e processos, de estruturas e construções de aparelhos aéreos e de pesquisa de materiais e motores, bem como de ensino de comunicações aéreas e de meteorologia. Cada país, dizia ele, deveria desenvolver sua própria tecnologia, a par com o avanço da ciência aeronáutica, dirigida para projetos e produção de aparelhos, e também como desenvolver produtos e materiais, de acordo com processos e métodos técnicos dos respectivos parques industriais.
Essas recomendações foram repetidas por Santos-Dumont no Congresso Científico Pan-americano, em 1915, e, no Brasil, no período de 1915 a 1918, em seus pronunciamentos orais e em seus escritos, procurando atrair a atenção dos membros do Governo, com profética antevisão do futuro sobre o importante papel que os aerostatos e os aviões iriam desempenhar no mundo.
Foi em seu livro "O que vi, o que veremos", editado em 1918 pela Editora A Encantada, que Santos-Dumont registrou a idéia de criação de uma escola técnica, no Brasil, voltada para a aviação, antevendo um centro de tecnologia que só se efetivaria cerca de 30 anos mais tarde. Eis o parágrafo do livro:
"Eu, que tenho algo de sonhador, nunca imaginei o que tive ocasião
de observar, quando visitei uma enorme fábrica nos EUA. Vi milhares
de hábeis mecânicos ocupados na construção de
aeroplanos, produzindo diariamente de 12 a 18. Quando o Congresso Americano
acaba de ordenar a construção de 22.000 dessas máquinas,
nós, aqui, não encaramos ainda esse problema com a atenção
que merece. A principal dificuldade para a navegação aérea
está no progresso dos motores... Já o aço tem sido
melhorado... Outra dificuldade que se apresenta à navegação
aérea é a de localizar-se o aeroplano... É tempo, talvez,
de se instalar uma escola de verdade em um campo adequado... Margeando a
linha da Central do Brasil, especialmente nas imediações de
Mogi das Cruzes, avistam-se campos que me parecem bons. Os alunos precisam
dormir junto à Escola, ainda que para isso seja necessário
fazer instalações adequadas... Penso que, sob todos os pontos
de vista, é preferível trazer professores da Europa e dos
EUA, em vez de para lá enviar alunos. Meu mais intenso desejo é
ver verdadeiras Escolas de Aviação no Brasil. Ver o aeroplano,
hoje poderosa arma de guerra, amanhã meio ótimo de transporte,
percorrendo as nossas imensas regiões, povoando nosso céu,
para onde, primeiro, levantou os olhos o Pe. Bartolomeu Lourenço
de Gusmão."
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