O Noticiário de Imprensa da Aeronáutica (NOTIMP) apresenta matérias de interesse do Comando da Aeronáutica, extraídas diretamente dos principais jornais e revistas publicados no país.
OAB e entidades de defesa dos homossexuais criticam general que disse que as tropas jamais obedeceriam a um comandante gay
Alana Rizzo
Os quatro anos e meio que passou na Base Aérea de Florianópolis, em Santa Catarina, contribuíram para que o produtor de moda Renato Agostinho, de 30 anos, desistisse da carreira militar. “Ainda é um tabu. Sofri perseguição, discriminação… Em contrapartida, dentro da própria organização, o que mais tem são homossexuais, inclusive na alta patente”, conta o jovem, que manteve em segredo sua opção sexual durante o tempo em que serviu na Aeronáutica.
Assumir, segundo ele, também não é uma opção: “Você não consegue evoluir na patente. Mandam para bem longe, não sai nenhuma promoção até que você desiste da carreira”. Funcionário público concursado, Agostinho rebateu as declarações do general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho contra a presença de homossexuais nas Forças Armadas. “É lamentável. Ainda mais nesse contexto em que a sociedade está discutindo e tratando com mais naturalidade. Como que alguém que vai ocupar um cargo público fala uma coisa dessas?”, questiona.
Assim como ele, associações em defesa dos direitos humanos e da diversidade sexual também reagiram ao depoimento de Cerqueira, candidato a uma vaga no Superior Tribunal Militar (STM), na Comissão Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, de que as tropas não obedeceriam às ordens de um comandante homossexual. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) considerou o depoimento discriminatório. Segundo o presidente da entidade, Ophir Cavalcante, o que se deve exigir de um militar é disciplina, treinamento e defesa do país, independentemente da opção sexual. “É lamentável que esse tipo de discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas Forças Armadas”, ressaltou. Já o ministro da Defesa, Nelson Jobim, minimizou o problema e disse que a presença de gays na carreira militar está sendo discutida pelo ministério. “De todo modo, o posicionamento do general não influenciará nessa decisão, até porque ela não passa pelo STM”, sinalizou o ministro.
Diante da repercussão do caso, senadores querem novamente os militares na CCJ. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresentou ontem requerimento para convidá-los a explicar as declarações contrárias à presença dos homossexuais nas Forças Armadas. “Quero que eles esclareçam o que falaram”, disse Suplicy. Para o senador, a Constituição proíbe a discriminação de quaisquer pessoas. O senador Romeu Tuma (DEM-SP) afirma que, mesmo voltando à CCJ, o episódio não será impeditivo para os dois serem barrados na sabatina do Plenário.
O presidente da CCJ, Demostenes Torres (DEM-GO), concordou em aceitar uma nova audiência — apesar de, na comissão, o nome dos militares ter sido aprovado por 20 votos a zero.
Ativista em direitos humanos e presidente da organização não governamental Dom da Terra, Márcio Marins, acredita que o general “perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado”.
O grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) também criticou as declarações do general. A presidente da ONG, Gilza Rodrigues, classificou a declaração como “estapafúrdia” e disse que a atitude do militar revela como o Exército brasileiro ainda é conservador. “É um disparate completo. O governo federal tem uma política pró-LGBT, por meio do Programa Brasil sem Homofobia. O presidente Lula já deu declarações de que o país caminha para o pluralismo sexual e de ideias”, lembrou.
A reportagem não conseguiu falar com o general Cerqueira Filho. O STM foi procurado e informou que essa era a posição do militar e não do tribunal.
O IMPÉRIO CONTRA-ATACA?
O senador Magno Malta (PR-ES) afirmou ontem que o Programa Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República cria “um império homossexual no Brasil”. Durante pronunciamento ontem, o senador, que garantiu não ser homofóbico, propôs a criação da Frente Parlamentar contra o decreto presidencial que enaltece o Projeto de Lei 122, em tramitação na Câmara, e que estabelece direitos para os gays.
É lamentável que esse tipo de discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas Forças Armadas”
Ophir Cavalcante, Presidente da OAB
Colaboraram Ricardo Brito e Daniela Lima
Fogo cruzado
Os casos polêmicos envolvendo homossexuais e as Forças Armadas
O tenente coronel Zani Maia, comandante do Regimento Sampaio, foi expulso das Forças Armadas após ter sido flagrado em seu carro mantendo relações com um balconista. Na época, o coronel Hugo Coelho de Almeida, do Rio de Janeiro, sugeriu a pena de morte contra o comandante.
Carlos Machado, de 31 anos, tenente-dentista da Aeronáutica, foi preso por 15 dias por ter representado o papel de homossexual na peça Alta vigilância, de Jean Genet, e por ter tirado foto na praia ao lado do uniforme militar.
O cabo Rildo Duarte e quatro grumetes foram acusados pelo Ministério Público Militar de usarem as dependências da Escola de Aprendizes do Espírito Santo para a prática de atos homoeróticos. Eles foram enquadrados em processo por desrespeito ao Código Penal Militar.
O sargento Laci Araújo foi preso depois de conceder entrevista à revista Época declarando que era gay e que vive há 10 anos com o sargento Fernando Figueiredo. Na época, o Exército afirmou que eles infringiram normas. Logo em seguida, Figueiredo pediu baixa da corporação e foi liberado. Laci continua.
Ponto a ponto - Thomas Shannon
Novo embaixador dos EUA assume o posto em meio à controvérsia sobre compra de caças e defende relação transparente
Isabel Fleck
Ao chegar a Brasília para finalmente assumir o posto de embaixador dos Estados Unidos, após oito meses de espera pela confirmação do Congresso norte-americano, Thomas Shannon fez questão de ressaltar que as relações entre os dois países atingiram um grau de “respeito e atenção” único, mas deixou escapar que os dois países “podem trabalhar para melhorar a franqueza”. A vinda de Shannon ao Brasil coincide com a publicação, pelo jornal Folha de S. Paulo, de que o governo brasileiro teria confirmado a decisão de comprar os caças franceses Rafale — que disputam com o norte-americano F-18 Super Hornet na concorrência da Força Aérea Brasileira (FAB). O embaixador, no entanto, preferiu se abraçar às declarações do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que negou ontem haver uma definição do processo de compra. Shannon insistiu na tese de que o governo americano tomou uma decisão “sem precedentes” em relação à transferência de tecnologia oferecida ao Brasil.
“Estamos mudando um paradigma em termos de transferência de tecnologia. Isso mostra a importância da nossa diplomacia comercial, mas também uma confiança no Brasil e em nossa relação com o país. Isto é, estamos dispostos a tomar passos em relação ao Brasil que no passado não pudemos tomar”, disse Shannon.
Ele também afirmou acreditar que, apesar de os quase seis meses de ausência de um embaixador americano em Brasília não terem atrapalhado o diálogo entre Brasil e Estados Unidos, isso também “não ajudou”. Seu antecessor, o empresário Clifford Sobel, deixou a representação na capital no fim de agosto e, desde então, muitas divergências entre os dois países surgiram, em temas como a crise política em Honduras, as bases militares na Colômbia e a aproximação brasileira com o Irã. O diplomata, contudo, defendeu que os dois países estão num momento em que não há mais lugar para “alterações” entre períodos de muita cooperação e outros de falta de atenção, como foi no passado. “A importância agora é construir um diálogo aberto, flexível e respeitoso.”
Ao falar sobre a relação brasileira com o Irã, Shannon foi diplomático, mas destacou que os países que buscam o diálogo com Teerã têm de “medir a eficácia” dessas ações “com base nos resultados”. “O Brasil, como país soberano, obviamente não precisa de licença ou permissão para atuar dentro de seus interesses nacionais”, afirmou. Entretanto, ao responder sobre a dúvida de diversos países da região, como o Brasil, em reconhecer as eleições em Honduras, o embaixador deu uma alfinetada. “Uma diplomacia que tem sua base em fatos e que está focada em assuntos concretos, e não na ideologia nem na retórica, é a melhor maneira de tratar um problema como Honduras”, avaliou.
Dia apertado
Em seu primeiro dia de trabalho em Brasília, o norte-americano teve uma agenda cheia. Com quase uma hora de atraso, por volta do meio-dia, foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem entregou suas credenciais e conversou brevemente, entre outros assuntos, sobre a atuação dos dois países no Haiti. Depois de uma coletiva de imprensa na nova residência oficial do chefe da embaixada, Shannon se reuniu com o secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota — ex-embaixador do Brasil em Washington —, a quem reafirmou a intenção da secretária de Estado, Hillary Clinton, de vir ao Brasil “o quanto antes”, provavelmente na última quinzena de março. A data, porém, ainda não foi fechada.
Pedido de franqueza
Compra dos caças
“Tanto o ministro (Nelson) Jobim quanto o ministro (Celso) Amorim disseram hoje (ontem) que o governo ainda não tomou sua decisão. Do nosso ponto de vista, o Super Hornet (avião produzido pela Boeing e que disputa a possibilidade de fornecimento para a FAB) é um bom produto e acho que merece a atenção do governo brasileiro. É importante notar que a França e a Suécia são amigos e aliados dos EUA, e essa é uma concorrência comercial, que não vai afetar a nossa relação em termos de cooperação em segurança. Mas também é importante notar que o governo dos EUA, em termos de transferência de tecnologia, tomou algumas decisões sem precedentes. Estamos mudando um paradigma em termos de transferência de tecnologia para abrir um espaço para a Boeing. Isso mostra a importância da nossa diplomacia comercial, mas também uma confiança no Brasil e em nossa relação com o país. Isto é, estamos dispostos a tomar passos em relação ao Brasil que no passado não pudemos tomar.”
Convivência no Haiti
“Há muitos anos, o Brasil desempenha um papel de liderança muito importante no Haiti, pela Minustah (as Forças de paz da ONU, comandadas pelo Brasil). Depois da tragédia, o papel do Brasil é ainda mais importante. Depois de uma tragédia como a que aconteceu no Haiti, a vontade de ajudar da comunidade internacional foi intensa e muito importante. Diferentes países, como o Brasil, os EUA, a França e os membros da União Europeia fizeram todo o possível para prestar assistência humanitária o mais rápido possível. Isso não foi nada fácil, considerando as condições em que se encontrava o Aeroporto de Porto Príncipe, que ficou sem o controle do governo do Haiti por alguns dias. Neste momento, acho que a cooperação e a colaboração foram ótimas. Os nossos militares e os países que compõem a Minustah, entre eles o Brasil, estavam mais próximos do que nunca. O líder da Minustah, o general Floriano Peixoto, é um excelente líder e membro das Forças Armadas do Brasil, e é um excelente colaborador com os diferentes países que estão trabalhando no Haiti neste momento. O Haiti vai ser beneficiado com essa cooperação e colaboração.”
Relação com o Irã
“O Brasil, como país soberano, obviamente não precisa de licença ou permissão para atuar dentro de seus interesses nacionais. Vamos respeitar as decisões tomadas pelo governo do Brasil. Ao mesmo tempo, temos um diálogo intenso com outros países do mundo sobre o Irã. Um diálogo que ocorre dentro da ONU, especialmente no Conselho de Segurança, e também em outras organizações internacionais, como a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Do nosso ponto de vista, o Brasil está trabalhando de maneira cooperativa com os outros países do Conselho de Segurança. Ele teve um papel importante, como outros países, em comunicar ao Irã as preocupações da comunidade internacional com respeito ao seu programa nuclear, especialmente à falta de transparência, e também sobre direitos humanos — e não só os direitos políticos e civis, mas de expressão e de prática religiosas. As ações recentes do governo do Irã provocam muita preocupação não só nos EUA, mas em outros países. Todos os países estão procurando um processo para começar o diálogo e aproximação com o Irã, mas a questão é se o Irã tem o mesmo interesse no diálogo. Até este momento, parece que não.”
A crise em Honduras
“Nesse mundo, uma diplomacia que tem sua base em fatos e que está focada em assuntos concretos, e não na ideologia nem na retórica, é a melhor maneira de tratar um problema como Honduras. O principal fato em Honduras foi a eleição de Pepe (Porfírio) Lobo como presidente, e a nossa esperança é que os diferentes países da América encontrem na sua eleição uma saída para o problema de Honduras e uma maneira de reintegrar o país à OEA e à comunidade de países democráticos das Américas. Estamos conversando com o Brasil e com outros países da América do Sul que ainda não tomaram uma decisão sobre isso, e têm sido diálogos positivos.”
Venezuela
“A Venezuela está passando por um momento difícil. Do nosso ponto de vista, é importante, em momentos de crise política, abrir o espaço político para o povo. E, nesse momento, a nossa mensagem ao governo da Venezuela seria de não reprimir, mas abrir espaço e ouvir o povo venezuelano.”
Etanol
“Reduzir taxas (sobre o etanol) é um assunto que está sob a competência do Congresso dos EUA, e não do Executivo, então eu não tenho muito a dizer sobre isso. É importante que os EUA e o Brasil continuem trabalhando no assunto de biocombustíveis, compartilhando informações que saem das pesquisas de especialistas e trabalhando em outros países para ajudar a desenvolver os seus setores de biocombustíveis. Acho que, a curto prazo, essa é a melhor maneira de aumentar a produção de etanol e assegurar que esse e outros biocombustíveis se tornem parte de um programa de fontes de energia alternativas.”
A briga do algodão
“O Brasil e os EUA estão em um diálogo neste momento, procurando uma maneira de evitar uma retaliação. Encaramos com muita seriedade as nossas obrigações na Organização Mundial do Comércio (OMC) e queremos trabalhar com o Brasil para melhorar a nossa relação comercial e evitar uma ação retaliatória. Há uma negociação entre o USTR (Escritório de Representação do Comércio dos EUA) e o Itamaraty. Os governos dos EUA e do Brasil já disseram claramente que gostariam de encontrar uma solução que evite a retaliação, porque a retaliação sempre provoca uma contrarretaliação — e isso não é bom nem para o Brasil nem para os EUA.”
Uma conversa mais “americana”
Thomas Shannon procurou apresentar-se como pragmático. Disse perseguir uma “diplomacia de resultados”. Na teoria, faz sentido. Na prática, é preciso saber o que os EUA têm para entregar
Alon Feuerwerker
Nas Entrelinhas
O novo embaixador do Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, assume o cargo num cenário desafiador. O Brasil cresce em importância estratégica para os interesses americanos na esfera regional, e mesmo global, mas a tendência recente é acumularem-se contenciosos. De Honduras ao Irã, da Rodada Doha ao papel do G20 na reforma do sistema financeiro, a regra nos últimos tempos é a dissonância.
Especialmente porque nas disputas recentes a balança tem pendido para eles, e não para nós. Isso embute um custo político, quando evidencia a assimetria entre o papel que o Brasil julga reservado para si e a falta dos meios para fazer valer nossas posições. Um capital interno muito explorado por Luiz Inácio Lula da Silva é a altivez diante das outras nações, inclusive das potências. Mas, se a altivez não traz resultados práticos, o efeito político aqui pode ser contrário ao desejado.
Com Lula, o Brasil entrou para valer no jogo, e quem está em campo deve estar preparado para qualquer placar. Não dá para colocar nos Estados Unidos a culpa pelos nossos tropeços. Até porque ou nos enxergamos como jogador pleno ou pedimos para voltar aos juniores, aos tempos em que lançávamos nos outros a responsabilidade pelas nossas derrotas. Não dá para querer ser, ao mesmo tempo, protagonista e coitadinho.
Em entrevista ontem após reunir-se com Lula, Shannon procurou contornar as diferenças e disse apostar nos pontos em comum. Procurou circunscrever ao âmbito comercial a concorrência para a compra dos novos caças da FAB. Ressaltou mais de uma vez que Suécia e França (os outros dois concorrentes) são aliados e amigos dos Estados Unidos. Em relação ao Irã, lembrou que o Brasil, como país soberano, não precisa de autorização alheia para conversar com quem quer que seja.
Sobre Honduras, disse ter esperança que a eleição do novo presidente tenha representado um ponto nodal para a normalização das relações hemisféricas, sem criticar a resistência brasileira à transição institucional ali apoiada por Washington. Sobre um tema mais delicado, a Venezuela, arriscou-se um pouco além. Sugeriu ao governo de Hugo Chávez que evite reprimir as manifestações da oposição, ao opinar que nas crises políticas os espaços de liberdade podem servir para encontrar as saídas menos traumáticas.
Na sua chegada ao Brasil, Shannon procurou apresentar-se como pragmático. Disse perseguir uma “diplomacia de resultados”, baseada em fatos e não em debates ideológicos. Na teoria, faz sentido. Na prática, já que se trata de medir eficácia, é preciso saber o que os Estados Unidos têm para entregar.
Os americanos vão aceitar, como quer o Brasil, uma influência decisiva do G20 no redesenho das regulações financeiras globais? Vão aliviar a pressão para que os maiores países emergentes definam metas draconianas na emissão dos gases do efeito-estufa? Vão investir na ressurreição da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio? Vão suspender o bloqueio a Cuba? E, finalmente, vão topar abrir de vez o mercado deles ao nosso etanol?
Neste ponto, Shannon foi mais do que cauteloso. O Senado americano vinha bloqueando sua confirmação exatamente pelo temor de que os Estados Unidos reduzissem as barreiras ao biocombustível de cana. Aqui, não parece haver luz no fim do túnel protecionista.
São todos assuntos para o embaixador quebrar a cabeça. Mas em pelo menos um caso as diferenças do Brasil com os Estados Unidos são insolúveis, incontornáveis. Entre os principais dirigentes mundiais, Barack Obama é o único que não precisa de uma foto sorridente ao lado de Lula para obter certificado de “progressista”. Na prática, Lula nada agrega politicamente a Obama. Diferente da situação de George W. Bush, que cultivava sua amizade com o presidente brasileiro como antídoto à imagem complicada que sabia ter em escala planetária.
Também por isso, digamos que as relações e as conversas entre os dois países e os dois presidentes tenham entrado numa fase mais igual, mais objetiva, mais “americana”. Não era isso, aliás, que o Brasil queria?
Em dia com a política
Baptista Chagas de Almeida
PINGA FOGO
Os gays não ficaram nem um pouco alegres com as declarações do general Cerqueira Filho contra a presença deles nas Forças Armadas.
Ninguém sabe se vai decolar mesmo a compra dos caças franceses. Pelo menos, por enquanto, o governo brasileiro não confirma que eles serão os escolhidos. Por enquanto, bem entendido.
Nas estrelas
Eliane Cantanhêde Brasília
BRASÍLIA - Como estava escrito nas estrelas (e previsto pelos quatro estrelas do Alto Comando da Aeronáutica), Jobim, Amorim e uma fila de autoridades negaram a informação de ontem da Folha de que o presidente Lula e o ministro da Defesa já tenham batido o martelo a favor dos caças Rafale. Mas isso já iria acontecer mesmo e finalmente aconteceu depois que a francesa Dassault aceitou um desconto de US$ 2 bi no seu pacote, que inclui 36 aviões, logística, armamento e transferência de tecnologia para transformar o Brasil em futuro produtor de aviões supersônicos. Como também prometiam a Suécia e os EUA, mas com menores preços, entre outras vantagens.
Vale a pena até registrar o cuidado da Aeronáutica para "desmentir" sem mentir. Diz a sua nota que não houve "comunicado oficial" -o que não exclui um comunicado pessoal e verbal sobre a decisão. A questão é que os desmentidos foram protocolares, e nem o governo americano, nem o sueco, nem a Boeing, nem a Saab são bobos. Se o Brasil mandou renegociar só o preço dos franceses, depois de fechada toda a etapa de propostas e avaliações, os outros dois, a Suécia e os EUA, também querem.
Se, como dizem Jobim e Amorim, não há decisão e tudo ainda está em estudo, que se mantenha o teatro, ops!, o ritual de dar as mesmas chances, iguaizinhas, para todos. Assim são processos de seleção sérios e justos, de países sérios e justos. E que se arrogam líderes.
O resultado é que a decisão já está tomada, mas a agonia continua, com Jobim quebrando a cabeça e manejando a pena para criar argumentos lógicos, racionais e convincentes para explicar por que foi um e não o outro, indicado por quem entende desse riscado.
Ele vai precisar de muita imaginação. Do contrário, é melhor justificar a decisão numa única linha: "Vão ser os Rafale e pronto". Ou mais curto ainda: "Porque eu, Lula, e eu, Jobim, queremos".
Jobim diz que compra de novos caças da FAB ainda não foi definida
Defesa afirma que o relatório da Aeronáutica foi entregue em janeiro e que ministério analisa aspectos políticos e estratégicos
No Senado, Comissão de Relações Exteriores aprovou requerimento para que o ministro explique a escolha, mas ida não é obrigatória
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, negou ontem que o governo já tenha escolhido o caça francês Rafale. O ministro foi questionado sobre o assunto ontem pela manhã durante o anúncio do 3º balanço do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). "Não está definida a compra dos caças, o procedimento está em andamento no Ministério da Defesa. A notícia não tem fundamento", afirmou o ministro, sem dar mais detalhes e referindo-se a reportagem publicada ontem pela Folha. A negativa do ministro, no entanto, é protocolar. O governo já bateu o martelo sobre a compra dos caças franceses, após uma redução dos preços.
Posteriormente, a Defesa divulgou nota em que afirma que o relatório da avaliação técnica do programa F-X2 foi entregue pela FAB no dia 6 de janeiro e que estão sendo desde então feitas "análises dos aspectos políticos, estratégicos e financeiros do referido pacote tecnológico", baseadas na Estratégia Nacional de Defesa.
A nota informa também que a Defesa poderá receber mais dados dos concorrentes e que, assim que Jobim finalizar o processo, submeterá suas conclusões ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A FAB, por sua vez, limitou-se a dizer, em nota, que não recebeu nenhuma "comunicação oficial" sobre o assunto. Isso não significa que não tenha havido conversas entre Jobim e o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, após a reunião fechada entre o ministro e Lula, na qual foi analisada a nova proposta dos franceses.
Ontem, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou convite para que Jobim se explique sobre o tema. A data não foi marcada, e ele pode se recusar a ir à Casa.
Constrangimento
O requerimento já havia sido elaborado por Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Renato Casagrande (PSB-ES) antes de a Folha revelar que Lula e Jobim já decidiram pelo Rafale. Ambos não foram à sessão da Comissão de Relações Exteriores.
Em seu pedido, Azeredo diz que a preferência pelos franceses manifestada pelo governo antes da decisão final "tem causado constrangimentos" à FAB.
O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), que presidiu a sessão e votou a favor do convite, disse que iria aguardar uma resposta oficial sobre a compra, mas argumentou ser contra a decisão. "Se bateu o martelo, é temerário, estranho. De que adianta um laudo técnico da Aeronáutica, que será responsável por manutenção e uso?"
O Congresso, porém, não tem poderes para anular a decisão do presidente. Lula deverá submeter a decisão ao Conselho de Defesa Nacional, do qual participam os presidentes do Senado e da Câmara, mas o órgão é meramente consultivo.
OAB critica general que rejeita gays no Exército
Candidato ao STM, Cerqueira Filho afirma que a tropa não obedece a homossexuais
Ministro Nelson Jobim diz que presença de gays nos quartéis está em discussão e que a opinião do general não diz respeito ao tribunal
LARISSA GUIMARÃES DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A declaração de um general do Exército, que defendeu que gays só devem ser aceitos nas Forças Armadas caso mantenham segredo sobre sua orientação sexual, provocou ontem protestos. As reações partiram tanto de entidades quanto de parlamentares. A OAB afirmou que as declarações foram "discriminatórias", e ONGs ligadas ao movimento gay classificaram o episódio de "absurdo".
Segundo o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Cavalcante, "é lamentável que este tipo de discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas Forças Armadas brasileiras".
A fala do general, relatada ontem pelo jornal "O Globo", ocorreu em uma sabatina realizada anteontem no Senado. Candidato a uma vaga no STM (Superior Tribunal Militar), o general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho criticou a presença de homossexuais nas Forças Armadas. "O indivíduo não consegue comandar. O soldado, a tropa fatalmente não vai obedecer. Isso foi provado na Guerra do Vietnã", afirmou.
"Não é que eu seja contra o homossexual, cada um tem que viver a sua vida", disse Cerqueira Filho: "Se ele é assim talvez tenha outro ramo da atividade que ele possa desempenhar".
O almirante-de-esquadra Álvaro Luiz Pinto, também cotado para o STM, afirmou que não tem nada contra os gays desde que "mantenham a dignidade da farda, do cargo, do trabalho que executa". Eles se manifestaram após um senador ter questionado os militares sobre a presença de homossexuais nas Forças Armadas.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que a questão da presença de gays nos quartéis está sendo debatida nas Forças Armadas e que a opinião manifestada pelo general não influenciará a discussão.
"Nós estamos abrindo o debate no Ministério da Defesa. E evidentemente que essa manifestação feita pelo general não influenciará os debates internos porque isso não diz respeito ao tribunal que ele agregará", disse Jobim após mencionar debate nos EUA sobre a revisão da política de "don"t ask, don"t tell" (não pergunte, não diga), que permite que gays entrem nas Forças desde que mantenham sua orientação em sigilo.
Ontem, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediu que o general volte ao Senado na próxima semana para esclarecer suas declarações: "Um ministro do Superior Tribunal Militar precisa respeitar a Constituição, que não permite tais diferenciações entre as pessoas".
A presidente do Grupo Arco-íris, cidadania LGBT, Gilza Rodrigues, falou em "retrocesso": "Enquanto o governo federal fala em Brasil sem homofobia, pessoas desse tipo de posicionamento querem vaga no Superior Tribunal Militar".
Andressa Caldas, do Fórum Nacional dos Direitos Humanos, disse que o episódio mostra a necessidade de se debater a democratização nas Forças Armadas. A Folha não localizou o general Cerqueira Filho e o almirante Álvaro Luiz Pinto.
Suecos e americanos também oferecem desconto nos caças
Ministério da Defesa emite nota na qual nega que o acordo já tenha sido fechado
Novo embaixador dos EUA no Brasil diz que "os dois países podem trabalhar para melhorar a franqueza", mas nega abalo nas relações
IGOR GIELOW SECRETÁRIO DE REDAÇÃO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Surpresos pela negociação direta do governo brasileiro com a fabricante francesa Dassault, os concorrentes na disputa pelo fornecimento dos novos caças da FAB reclamam o direito de oferecer novos preços para seus aviões. Conforme a Folha revelou ontem, a Dassault baixou em US$ 2 bilhões a oferta pelo pacote de seu caça, o Rafale. O avião, favorito do governo Lula, foi então escolhido em uma reunião entre o presidente e o ministro Nelson Jobim (Defesa) na terça passada. Ainda não há previsão do anúncio formal.
"Ficamos surpresos [com a escolha do Rafale], mas ainda esperamos o resultado final. Se houver a oportunidade, gostaria de poder oferecer preço ainda mais baixo. Estamos dispostos a isso. Sempre trabalhamos com o preço apresentado na revisão das propostas em outubro. Não tivemos mais contato com a FAB depois disso", afirmou Bengt Janér, diretor da sueca Saab no Brasil.
O caça sueco, o Gripen NG, foi o escolhido na avaliação técnica da FAB por ser mais barato, além de oferecer transferência de tecnologia e conhecimento maior por ser um projeto em desenvolvimento. Para o representante da outra concorrente, a Boeing norte-americana, "pareceu algo estranho" a França ter negociado com o Brasil após a entrega das propostas finais à FAB em outubro. "Não tivemos a mesma oportunidade, mas, se isso for possível agora, estaremos muito felizes em conversar com o governo", disse Mike Coggins.
Nota da Defesa
Ontem a Defesa ainda tentou consertar o estrago na nota em que protocolarmente negou que o acordo já estivesse fechado, dizendo que "levará em consideração outras informações enviadas pelos governos interessados e pelos proponentes". Mas o fato é que apenas a França teve tal privilégio.
Jobim defende Paris, com quem já assinou R$ 22,5 bilhões em acordos militares, como parceira estratégica. O pacote oferecido pela empresa sueca era o mais barato, de US$ 6 bilhões, incluindo aí US$ 1,5 bilhão pela manutenção por 30 anos. Isso compreende os 36 caças, logística, armamentos e toda transferência de tecnologia. O pacote da Dassault baixou para US$ 10,2 bilhões (sendo US$ 4 bilhões em manutenção). O F-18, por US$ 7,7 bilhões (US$ 2 bilhões de manutenção).
Fechado o acordo com os franceses, o valor total (quase R$ 20 bilhões na cotação de ontem) chega perto do total de investimentos previstos no PAC em 2009 -embora o pagamento seja em vários anos. Os aviões substituirão diversos modelos em uso. Os 12 Mirage-2000, a linha de frente da defesa aérea, devem parar em 2014, e outras aeronaves estão ultrapassadas. A Dassault não quis fazer comentários.
O novo embaixador dos EUA, Thomas Shannon, aproveitou ontem sua primeira entrevista em Brasília e defendeu o F-18. Questionado se faltara "franqueza" ao Brasil, foi diplomático: "Franqueza é algo bom na diplomacia, e os dois países podem trabalhar para melhorar a franqueza. O Super Hornet é um grande caça".
Mas também foi cauteloso. Considerou que se trata de uma "concorrência comercial", ligada à "diplomacia comercial", e disse que o resultado, qualquer que seja, não vai afetar a relação dos EUA nem com o Brasil nem com os outros dois competidores. Shannon se encontra hoje às 16 horas com Jobim.
No fronte diplomático, na semana que vem é a vez sueca, com a visita ao país do influente chanceler do país, Carl Bildt. Numa viagem precursora à visita do rei sueco no mês que vem, ele irá discutir o caso com seu colega Celso Amorim. Todos os concorrentes, apesar de palavras de otimismo, sabem que agora só uma reviravolta improvável tira o fornecimento dos aviões da França.
Colaborou ELIANE CANTANHÊDE, colunista da Folha
Os embates entre Lula e as Forças Armadas
Luciana Abade
O mal estar gerado com o pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a Aeronáutica refizesse o relatório sobre os caças a serem adquiridos pelo Brasil sem classificar as aeronaves não é o primeiro desconforto público entre o presidente e a Aeronáutica. Em 2007, Lula interferiu na prisão de 18 controladores de voo que fizeram greve de trabalho e fome paralisando parte dos aeroportos brasileiros. A prisão dos controladores, por motim, foi determinada pelo comandante da Aeronáutica, o brigadeiro Juniti Saito, mas Lula mandou suspender a ordem e descartou retaliações.
A interferência presidencial gerou revolta nas Forças Armadas. Na época, o Clube da Aeronáutica ameaçou entrar no Supremo Tribunal Federal (STF) com uma ação alegando inconstitucionalidade e crime de responsabilidade. As ações, no entanto, não foram iniciadas porque Lula recuou temendo que as insurgências se espalhassem por outros setores das Forças Armadas. Com o recuo, o comando do controle aéreo voltou para a Aeronáutica. O comandante Saito, que havia levantado a hipótese de se demitir, desistiu de deixar o cargo e ouviu do presidente a promessa de que as forças seriam reaparelhadas.
Na opinião do coronel reformado Geraldo Cavagnari, especialista em estratégia de Defesa, a interferência de Lula foi um grande erro:
– O presidente lidou com a questão como se estivesse no ABC e não se pode tratar uma questão militar com uma saída sindical. Isto não existe em lugar nenhum do mundo. Os militares não podem ter sindicatos, não podem fazer greve. Militares sem disciplina e unidade são um perigo para o governo.
Cavagnari acredita que a atitude de Lula se deu por inexperiência para lidar com questões tão peculiares como as militares. Para ele, o governo errou novamente, no final do ano passado, quando aprovou a criação da comissão da verdade com o objetivo de investigar e punir militares que praticaram tortura na ditadura.
– Foi um tiro no pé – dispara o coronel.
A aprovação da comissão fez o comandante Saito, ao lado dos comandantes do Exército e Marinha, ameaçar pedir demissão do cargo mais uma vez.
Apesar das críticas, Cavagnari afirma que o presidente tem uma boa relação com as Forças Armadas proporcionada, em parte, pela saída do ex-ministro da Defesa, Waldir Pires, que estava à frente da pasta durante o caos aéreo. O coronel acredita ainda que os problemas são pontuais e, de maneira geral, são bem solucionados. A “boa relação”, contudo, pode estar com os dias contados. Lula, até agora, recuou em todas as crises que viveu com os militares, mas a preferência pelo caça francês parece irredutível.
Mais uma turbulência para Jobim
Jobim nega que governo já tenha optado por caça francês
Vasconcelo Quadros
BRASÍLIA - O Senado decidiu convocar o ministro da Defesa, Nelson Jobim, para que ele confirme ou não se governo já optou mesmo pela empresa francesa Dassault na compra de 36 caças Rafale, um dos maiores negócios da história da aviação brasileira, estimado em cerca de R$ 11 bilhões, cuja disputa envolve também duas outras gigantes do setor, a americana Boeing e a sueca Saab. O aceno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos franceses, em setembro do ano passado, vem alimentando uma crise nos bastidores do projeto FX-2, com crescente insatisfação na Aeronáutica, e a preocupação de parlamentares que terão de dar aval ao pedido de aprovação de recursos que o governo deverá enviar ao Congresso.
– O correto é o presidente Lula seguir o parecer da Aeronáutica. Ele já fez tanto gesto de aproximação com o Sarkozy (Nicolas Sarkozy, presidente da França), comprando submarinos, helicóptero e outros caças, que essa decisão não afetaria as relações estratégicas com a França – analisa o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da Frente Parlamentar de Defesa.
A nota técnica da Força Aérea Brasileira, emitida no início de janeiro, coloca em primeiro lugar na concorrência o Gripen NG, da Saab, e em segundo o F-18 Super Hornet, da Boeing. Em desempenho técnico, o Rafale aparece em último lugar, mas o governo já deu sinais de que pode ter se decidido pela Dassault como mais um passo para reforçar a parceria com a França.
– É natural que o presidente tome uma decisão política e ela será acatada pela Aeronáutica, mesmo que seja equivocada. Vai se comprar o Rafale e mais tarde as críticas, que hoje estão submersas, nos bastidores, vão emergir – alerta o coronel reformado Geraldo Cavagnari, especialista em estratégia de segurança. Cavagnari acha que se as críticas sobre o fraco desempenho do Rafale em regiões de conflitos (o caça seria mais facilmente abatido que outras aeronaves) tiverem fundamento, a decisão do governo é perigosa, o que justificaria, segundo ele, “a luta de foice” que vem sendo travada entre os comandantes das Forças Armadas e o ministro Nelson Jobim para que o governo opte pelas recomendações técnicas da FAB.
– Ainda que a Dassault tenha barateado, o preço está 30% a 40% mais caro que as concorrentes. O governo deve respeitar também o parecer técnico. O ministro terá de nos dar essas explicações porque é o Congresso quem aprova os recursos que serão investidos – avisa o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado.
O ministro Nelson Jobim negou quinta-feira que o presidente Lula já tenha batido o martelo a favor da empresa francesa e afirmou que a compra ainda não está definida.
– O processo ainda está no âmbito do Ministério da Defesa. A notícia não tem fundamento – disse, em resposta a reportagem do jornal Folha de S. Paulo sustentando que a redução do preço teria levado o presidente Lula a se definir pela oferta da empresa francesa. A FAB também soltou nota informando que não foi comunicada sobre qualquer decisão. A decisão, segundo o governo, sairá logo depois do Carnaval.
Informe JB
Leandro Mazzini
Et la mère!? A conferir a veracidade das informações sobre a França ter reduzido o preço do pacote de 36 caças: levando-se em conta uma margem – oculta – de lucro, mesmo com a nova proposta, quer dizer que a Dassault estava embolsando US$ 2 bilhões de brinde?
Carne para Haiti O embarque de carne brasileira enlatada para vítimas do terremoto no Haiti ultrapassou 65 toneladas.
Memória
A Indonésia, arrasada pelo tsunâmi, recebeu 25 toneladas em 2004 dos frigoríficos brasileiros. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne comandou o envio. Comandou o envio também para o Haiti Lata cheia Frialto, Frigol, Frisa e Marfrig enviaram carne cozida em lata de alto valor proteico para os haitianos. O produto pode ficar estocado em ambiente natural.
Embaixador dos EUA ainda acredita na Boeing
O novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, demonstrou esperança quinta-feira de que a empresa americana Boeing ainda esteja no páreo para vender 36 aviões caças à Força Aérea Brasileira, apesar de todo o favoritismo da francesa Dassault. Segundo Shannon, os ministros Celso Amorim (Relações Exteriores) e Nelson Jobim (Defesa) negaram quinta-feira para ele que o governo brasileiro já tenha concluído o processo de escolha das aeronaves.
Ao receber as credenciais de embaixador das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir a embaixada dos EUA no Brasil, Shannon aproveitou para defender a escolha do caça da Boeing. Segundo o embaixador, a aeronave americana F-18 Super Hornet tem qualidades que não devem ser ignoradas pelo governo brasileiro.
– O avião da Boeing é um produto bom e merece a atenção do governo brasileiro – afirmou o novo embaixador, antes de destacar que as supostas preocupação das autoridades brasileiras em relação a restrições, por parte dos americanos, à transferência de tecnologia, não se justificam. – Em termos de transferência de tecnologia, o governo dos Estados Unidos tomou uma decisão sem precedentes e isso mostra a confiança no Brasil. Estamos dispostos a tomar passos com o Brasil que no passado não poderíamos fazer.
O embaixador ressaltou, contudo, que a briga comercial pelas venda dos caças não vai influenciar a relação do governo dos EUA com o Brasil, ou mesmo com a França e a Suécia, países de origem das empresas que disputam a venda.
– É importante lembrar que França e Suécia são amigos e aliados. Esta é uma concorrência comercial que não vai afetar a relação entre os países – avisou o novo embaixador, lembrando, porém, que as negociações diplomáticas exigem “franqueza” de seus interlocutores. – Franqueza é algo bom na diplomacia e os dois países podem trabalhar para melhorar a franqueza. O Super Hornet é um grande caça.
OAB classifica declaração como “lamentável”
As declarações do general Raymundo Cerqueira Filho sobre a incompatibilidade entre o homossexualismo e as atividades militares foram criticadas quinta-feira pelo presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, que classificou a opinião do militar como “discriminatória”.
– É lamentável que este tipo de discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas Forças Armadas brasileiras – disse Cavalcante. Na opinião do presidente da OAB, a defesa do país tem que ser feita por “homens e mulheres preparados, adestrados e treinados para este fim, independente da opção sexual de cada um”.
Já o presidente do Clube Militar, general da reserva Gilberto Figueiredo, saiu em defesa do general Cerqueira Filho.
– Concordo com o general Cerqueira. Como opção pessoal, particular, ninguém tem nada a ver com isso. Mas no desempenho das atividades, não entendo como seria possível (um militar assumir a homossexualidade) – disse. – Há homossexuais nas Forças Armadas, isso não é de hoje. Como opção particular, quando sai do quartel, com discrição, pode exercer a opção que bem entender. Mas que isso não fique explícito.
Piada
Segundo Figueiredo, é realmente difícil para um homossexual obter o respeito necessário dos militares, algo que seria fundamental caso o indivíduo ocupasse uma função de comando.
– Entre nós ainda é tema de chacota, de piada, de brincadeira. Uma pessoa que se sujeita a essa resistência toda fica difícil de ser respeitada, de ser entendida – explicou.
Na reserva há sete anos, o general, no entanto, diz que conheceu diversos casos de homossexualismo quando estava em atividade e afirmou que alguns militares chegaram a ser afastados porque assediaram sexualmente outros oficiais.
– Tem que ser discutido sim, tem que ter um estudo sério. Mas a minha opinião é que no dia de hoje, dentro do contexto cultural das Forças Armadas, não dá certo. Esse tema é meio tabu.
General abre polêmica sobre homossexuais entre militares
BRASÍLIA - O ministro da Defesa, Nelson Jobim, procurou minimizar a controvérsia envolvendo a presença de homossexuais nas Forças Armadas quinta-feira. Após o general Raymundo Cerqueira Filho, indicado para uma vaga no Superior Tribunal Militar (STM), ter declarado ser contrário à possibilidade durante sabatina no Senado, o ministro disse quinta-feira que o governo brasileiro ainda está estudando a admissão de homossexuais nas Forças Armadas e não será influenciado pela posição do militar.
– Esse tema está sendo debatido dentro do Ministério da Defesa e existe uma regra antiga, don"t ask, don"t tell (não pergunte, não diga em inglês), que é uma legislação americana onde o debate também está aberto – comentou Jobim, dando dicas de qual deve ser a posição brasileira sobre o assunto. – Estamos abrindo o debate no Ministério da Defesa. Evidentemente que esta manifestação feita pelo general (Cerqueira Filho) que foi inquirido no Senado para o STM não influenciará os debates internos, porque isso não diz respeito à competência do tribunal que ele agregará.
As declarações do general, contudo, não foram bem recebidas por alguns parlamentares. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediu ao Senado para que o militar seja ouvido novamente pela Casa para esclarecer declarações a respeito do ingresso de homossexuais nas Forças Armadas. A princípio, as novas explicações devem ser concedidas por escrito.
O caso
Durante sabatina realizada na quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o general disse que os gays não têm perfil “compatível” com as Forças Armadas. Segundo o general, “a vida militar se reveste de características que podem não se enquadrar em quem tem esse tipo de comportamento”. O militar ressaltou, contudo, que não vê problemas na presença de gays nas Forças Armadas, desde que o comportamento destes mantivesse a “dignidade e a honra”.
– Mas não vejo que é compatível com o trabalho nas Forças Armadas – declarou. Segundo o general, o “indivíduo homossexual” teria dificuldades para comandar tropas. – O indivíduo não consegue comandar o comando em combate, tem uma série de atributos e fatalmente a tropa não vai obedecer. A tropa não obedece indivíduos desse tipo. Estou sendo sincero na minha resposta.
Cerqueira Filho disse que optou por falar a verdade na comissão, sem esconder seu real pensamento a respeito do tema. Já o almirante Álvaro Luiz Pinto, também ouvido na CCJ, adotou postura neutra sobre a presença de gays nas Forças Armadas.
– Não tenho nada contra, desde que mantenham a dignidade da farda, do cargo e do trabalho. Se ele mantiver a sua dignidade, sem problema nenhum. Se for ferindo a ética, aí eu não seria a favor – disse Pinto.
Apesar das polêmicas declarações, o nome de Cerqueira Filho foi aprovado por unanimidade pelos senadores que integram a CCJ, assim como de Luiz Pinto. As declarações, contudo, foram feitas depois que a comissão já tinha aprovado o nome do general para o STM.
Os nomes do general e do almirante ainda precisam ser submetidos ao plenário do Senado para que sejam aprovados para o STM. Suplicy disse que sua ideia é ouvi-los antes que a Casa possa definir sobre as indicações.
Alguns senadores, contudo, já declararam apoiar o general.
– Ele não foi preconceituoso, apenas alertava sobre as dificuldades de participação dos homossexuais nas Forças Armadas. A pergunta feita ao general foi muito simplista – criticou o senador Romeu Tuma (PTB-SP). (Com agências)
Nordestinos seguem para o Haiti
Entre os 150 homens do Comando Militar do Nordeste que foram para o Rio, de onde seguirão quinta para o país caribenho, estão 77 pernambucanos
Wagner Sarmento wsarmento@jc.com.br
Os 150 militares do Comando Militar do Nordeste (CMNE) designados para reforçar o efetivo brasileiro na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) partiram no fim da tarde de ontem da Base Aérea do Recife para o Rio de Janeiro. O contingente conta com 77 militares pernambucanos, sendo 38 do Grande Recife e 39 de Garanhuns, no Agreste. Eles se juntarão a outros 800 homens, sendo 659 do Exército, 90 da Marinha e um da Aeronáutica. O grupo segue para o país caribenho na quinta-feira. A Companhia de Fuzileiros do CMNE ajudará a manter a segurança em Porto Príncipe, cidade devastada por um terremoto de 7 graus em 12 de janeiro.
O comandante do CMNE, general Américo Salvador, que comandou a solenidade de despedida, informou que os militares selecionados para a missão já atuaram na Minustah. “Recebemos o chamado na quinta-feira da semana passada. Devido a essa situação de urgência, selecionamos voluntários que têm experiência em ações no Haiti. Uma tropa que vai pela primeira vez passa por um treinamento de seis meses. Isso não era possível”, explicou.
O major Custódio Apolônio Santos da Silva, que vai comandar o contingente do CMNE no Haiti, viaja hoje para o Rio. A maior preocupação do oficial, que retornou do país caribenho em agosto do ano passado, é combater a criminalidade em Porto Príncipe. Antes do tremor, a cidade estava perto de voltar à normalidade. “A missão agora vai ser mais difícil. Praticamente, vamos começar do zero. Com o terremoto, o presídio de lá caiu, os presos fugiram, a população está promovendo saques em busca de comida. A violência voltou. A gente encara isso tranquilamente, com o compromisso de manter a estabilidade”, afirmou.
O grupo partiu em uma aeronave Hércules. O efetivo conta com homens do 5º contingente do CMNE, que esteve no Haiti em 2006, e do 10º, cuja missão no país caribenho aconteceu em 2009.
Familiares estiveram na Base Aérea para se despedir de seus parentes. Com os olhos marejados, a dona de casa Ana Vanessa da Silva, 19 anos, grávida de cinco meses, ganhou um beijo na barriga do marido, o soldado Esdras de Melo, 25. “Voltei em junho do ano passado, no mesmo mês a gente casou e logo depois ela engravidou. Vou perder o nascimento do meu primeiro filho, mas ela vai gravar tudo e depois eu assisto. É um motivo justo. Estou indo ajudar um povo que precisa”, disse Esdras. “A saudade é grande, mas meu filho vai ter muito orgulho do pai”, contou Vanessa.
Campanha no Estado arrecada 350 toneladas
A campanha Ajude o Haiti, realizada em Pernambuco,finalizou ontem suas atividades. Em 20 dias, foram colhidas 350 toneladas de donativos, entre alimentos, água e roupas, em 23 pontos de arrecadação. O prazo de término estava programado para a próxima quinta-feira, mas as dificuldades de envio do material para o país caribenho e de armazenamento dos produtos no Brasil fizeram o comitê organizador antecipar o encerramento.
Parte dos donativos arrecadados já foram enviados ao Rio de Janeiro, de onde seguirão, em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), para o Haiti. Diariamente, oito toneladas serão enviadas ao Rio via Correios.
Os organizadores informaram que 60 toneladas de alimentos cujo prazo de validade está próximo serão encaminhadas aos 26 municípios pernambucanos que se encontram em situação de emergência por conta da estiagem – 16 no Agreste e 10 no Sertão. Aproximadamente 212 mil pessoas serão beneficiadas no Estado. A entrega será feita pela Coordenadoria de Defesa Civil de Pernambuco (Codecipe), em parceria com as prefeituras.
Como o governo haitiano e a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) informaram que o país caribenho não está recebendo mais roupas, outras 25 toneladas de vestimentas arrecadadas serão repassadas a pessoas carentes desses municípios pernambucanos. A campanha foi liderada pelo Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). No próximo dia 22, as entidades envolvidas na campanha se reunirão para fazer um balanço geral.
Embaixador diz que EUA ainda estão no páreo
BRASÍLIA – Ao entregar ontem suas credenciais de embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon reforçou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a escolha do caça F18 Super Hornet da Boeing, na concorrência aberta pela Força Aérea Brasileira (FAB), envolverá uma oferta de transferência de tecnologia “sem precedente” e a elevação do grau de confiança dos EUA com o País.
“A oferta americana não tem paradigma. Isso demonstra nossa confiança no Brasil”, afirmou, horas após a cerimônia, em entrevista à imprensa. “Estamos dispostos a dar passos com o Brasil que, no passado, não pudemos dar”, completou. Shannon sustentou sua expectativa de que a Boeing ainda possa ser a escolhida. O chanceler Celso Amorim e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, negaram que a francesa Dassault tenha vencido a concorrência.
Indiretamente, Shannon concordou que “a franqueza é sempre bem-vinda na diplomacia” e que essa premissa não foi observada no processo de escolha dos caças da FAB. Por duas vezes, na entrevista, insistiu que a concorrência tem caráter estritamente comercial e que um resultado desfavorável à Boeing não afetará as relações de amizade e de aliança de seu país com a França ou a Suécia. Mas não incluiu o Brasil nessa pequena lista.
Indicado para a embaixada no Brasil pelo presidente Barack Obama, em maio de 2009, Shannon obteve o necessário aval do Senado americano para assumir o posto somente no fim de dezembro do ano passado.
Como seu antecessor, Clifford Sobel, deixara o Brasil em agosto, boa parte do lóbi americano em favor dos caças da Boeing foi prejudicada. “A relação Brasil-EUA é importante demais para que a ausência do embaixador americano venha a atrapalhar. Mas essa ausência não ajudou”, admitiu Shannon.
Thomas Shannon também negocia com o governo brasileiro a visita de Barack Obama e da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ao Brasil. Hillary deve desembarcar em solo brasileiro no mês de março, enquanto a visita de Obama ainda está em fase inicial de negociações. “Há muito interesse do presidente Obama em visitar o Brasil. A secretária Hillary quer vir o mais rápido possível”, disse.
França reduz preço de caças e Brasil vai anunciar compra
Até março, Lula convocará Conselho de Defesa para chancelar a decisão
Tânia Monteiro, BRASÍLIA
A redução do preço do avião Rafale, fabricado pela Dassault, era o sinal que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, precisavam para iniciar a preparação do anúncio da decisão final pela escolha do caça francês, que já havia sido tomada em setembro do ano passado, durante visita do presidente Nicolas Sarkozy ao Brasil.
O preço de US$ 8,2 bilhões para o pacote da Dassault de venda de 36 Rafale para a FAB, com peças de reposição, armas e logística era considerado muito alto e o governo brasileiro exigia a diminuição do valor para poder garantir e confirmar que a França é o parceiro militar estratégico do Brasil, o que acabou acontecendo, como noticiou ontem o jornal Folha de S. Paulo. De acordo com a reportagem, o preço caiu para US$ 6,2 bilhões.
Depois do carnaval, no mais tardar no início de março, Lula convocará o Conselho de Defesa Nacional para chancelar a decisão política já tomada de escolha do Rafale, por entender que ele atende às exigências que o Brasil quer para esse projeto.
Na proposta entregue pela Aeronáutica ao Ministério da Defesa, em 6 de janeiro, aprovada na reunião do Alto Comando de 18 de dezembro, os preços dos pacotes eram: US$ 8,2 bilhões, da Dassault, US$ 5,7 bilhões, da Boeing (fabricante do F-18), e US$ 4,5 bilhões da Saab (Gripen). De posse desses valores, com o pacote do Rafale considerado ainda muito alto, o governo saiu em campo para reduzi-lo. Era preciso que a Dassault baixasse o preço até para o Planalto poder argumentar que esse projeto é o que melhor atende à Estratégia Nacional de Defesa e a premissa de transferência de tecnologia, chancelado a decisão política já tomada.
Ontem, Jobim negou que o processo tenha sido encerrado. Pelo segundo dia consecutivo, o Comando da Aeronáutica se reuniu em Brasília e preferiu expedir uma nota sobre as notícias a respeito da redução do preço do Rafale e a decisão do governo brasileiro de optar pelo modelo francês. "A respeito da divulgação pela imprensa do suposto vencedor do processo de seleção dos novos caças multiemprego para a Força Aérea Brasileira (FAB), este centro informa que o Comando da Aeronáutica não recebeu qualquer comunicação oficial sobre o assunto."
Senado convida Jobim para explicar operação
Presidente da Comissão de Relações Exteriores diz que não há dados precisos do processo
Rosa Costa, BRASÍLIA
A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou ontem dois requerimentos convidando o ministro da Defesa, Nelson Jobim, para explicar a compra de aviões militares pelo governo brasileiro.
No seu requerimento, o presidente da comissão, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), afirma que não existem informações precisas sobre a escolha dos fabricantes, como aspectos técnicos e os preços das aeronaves. Segundo ele, a imprensa ora divulga a preferência da Força Aérea Brasileira (FAB) pelo modelo Gripen NG, da empresa sueca SAAB, ora informa a opção do governo pelos aviões de caça Rafale, da empresa francesa Dassault.
"Opção essa que tem causado constrangimento, ao se considerar que o relatório da área técnica aponta para outra direção", diz o senador tucano. "Daí porque a necessidade de relatar o processo de negociação para compra dessas aeronaves", justifica.
Já o senador Renato Casagrande (PSB-ES), defende a necessidade de discutir o andamento das negociações na compra dos aviões e a apresentação do relatório da Aeronáutica. Cabe ao ministro marcar a data da audiência. Na última entrevista em que falou sobre o assunto, Jobim disse que os procedimentos para compra dos aviões ainda estão em andamento no Ministério da Defesa.
CONSULTA
Ontem, o presidente da Frente Parlamentar de Defesa Nacional, deputado Raul Jungmann (PPS-PE), sugeriu a Jobim que o Congresso Nacional seja consultado sobre a compra dos caças para a FAB.
"O ministro me disse que não há previsão constitucional que obrigue o governo a ouvir o Legislativo. No entanto, lhe disse que isso seria muito importante, mesmo que a Constituição não obrigue, e ele ficou de analisar a nossa demanda, que julgou legítima", relatou o presidente da frente parlamentar, em nota divulgada por sua assessoria.
Segundo Jungmann, Jobim negou que o governo tenha fechado a compra do caça francês Rafale. "Eu indaguei a ele se essa decisão (a favor do Rafale) tinha sido tomada. O ministro Jobim me respondeu que não. Disse que recebeu o relatório da FAB no último dia 6 (de janeiro) e que não tinha sequer enviado ao presidente da República".
O deputado afirmou que Lula deve ainda consultar o Conselho Nacional de Defesa sobre a compra.
Oferta dos EUA ''não tem paradigma'', diz Shannon
Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA
Ao entregar ontem suas credenciais de embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon reforçou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a escolha do caça F18 Super Hornet, da Boeing, na concorrência aberta pela Força Aérea Brasileira (FAB) envolverá uma oferta de transferência de tecnologia "sem precedentes" e a elevação do grau de confiança de Washington em relação a Brasília. "A oferta americana não tem paradigma. Isso demonstra a nossa confiança no Brasil", afirmou, horas depois da cerimônia, em entrevista. "Estamos dispostos a dar passos com o Brasil que, no passado, não pudemos dar."
Shannon sustentou a expectativa de que a Boeing ainda possa ser a escolhida nas declarações dos ministros Celso Amorim, das Relações Exteriores, e de Nelson Jobim, da Defesa. Ontem, ambos negaram que a francesa Dassault tivesse vencido a concorrência por ter reduzido em US$ 2 bilhões o valor total de venda dos 36 jatos requeridos pela FAB.
Indiretamente, Shannon concordou que a "franqueza é sempre bem-vinda na diplomacia" e essa premissa não foi observada no processo de escolha dos caças. Por duas vezes durante a entrevista, insistiu que a concorrência tem caráter estritamente comercial e que um resultado desfavorável à Boeing não afetará as relações de amizade e de aliança de seu país com a França ou a Suécia. Mas não chegou a incluir o Brasil nessa pequena lista.
Indicado pelo presidente Barack Obama, em maio de 2009, Shannon obteve o necessário aval do Senado americano somente no final de dezembro passado. Ontem, passou a atuar oficialmente como embaixador em Brasília ao entregar as cartas credenciais ao presidente Lula.
Nas próximas semanas, os EUA promoverão uma demonstração real das habilidades do F18, durante uma operação conjunta das Armadas dos dois países.
Saab garante que seu avião ainda custa 40% a menos
Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA
A empresa sueca Saab, preferida pelos militares brasileiros para fornecer os caças ao País, alerta que nem a negociação de redução no preço dos aviões franceses Rafale seria suficiente para bater o valor oferecido pelos escandinavos. Segundo a fabricante do Gripen NG, a manutenção do avião sueco ainda custaria a metade da do francês.
Os franceses teriam oferecido o caça com desconto - dos US$ 8,2 bilhões (R$ 15,1 bilhões) iniciais, o contrato ficaria em US$ 6,2 bilhões (R$ 11,4 bilhões). Segundo a Saab, esse valor seria ainda 40% superior à sua oferta.
"Não se trata apenas do preço de venda, mas também a manutenção dos aparelhos por 30 anos. Nesse aspecto, nossos aviões custariam a metade do valor da concorrência em manutenção e gasto de combustível por hora voada", afirmou a assessora de imprensa da Saab, Anne lewis-Olsson.
DASSAULT
Certa de sua vitória, a Dassault preferiu manter seu compromisso de não mencionar publicamente o valor de sua oferta. Desde a divulgação da preferência da FAB pelo Gripen e da versão de que sua proposta ao Brasil seria quase o dobro da cifra apresentada à Índia, a empresa mantém uma discrição que colide com os lobbies das concorrentes.
Ontem, o principal acionista da companhia, Serge Dassault, desconversou ao ser abordado sobre o tema pela Radio Classique, da França. Afirmou que "toda esperança é permitida neste momento", mas que o Brasil ainda não fez sua escolha final. "Eu não sei de nada", afirmou.
No mês passado, a empresa contestou a versão de que venderia o mesmo avião à Força Aérea Indiana pela metade do preço sugerido ao Brasil. Argumentou que essa conta difere de país a país, segundo o estoque de peças de reposição e o período do apoio logístico. COLABOROU DENISE CHRISPIM MARIN
General diz que homossexual "não comanda"
Cerqueira Filho fez declaração em sabatina para tribunal militar
Rosa Costa, BRASÍLIA
As declarações do general de exército Raymundo Nonato de Cerqueira Filho - que afirmou em uma comissão no Senado que os homossexuais só deveriam ser aceitos pelas Forças Armadas "se mantivessem a opção sexual em segredo" - provocaram reações de diversos setores. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresentou ontem requerimento em que pede que as declarações sejam esclarecidas. ONGs de defesa dos direitos dos homossexuais se posicionaram e até o ministro da Defesa, Nelson Jobim, entrou em cena.
Para Cerqueira Filho, "o indivíduo (homossexual) não consegue comandar" e não seria obedecido pela tropa. A declaração ocorreu durante sabatina feita pelos senadores na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que aprovou sua nomeação para o cargo de ministro do Superior Tribunal Militar (STM). O almirante de esquadra Álvaro Luiz Pinto, também presente, disse que não tem nada contra, mas impôs condicionantes no sentido de que o homossexual "mantenha a dignidade da farda, do cargo, do trabalho que executa".
Suplicy pediu aos colegas que só examinem no plenário a indicação dos dois para o STM após eles "esclarecerem" as declarações. "Considerando que se pode inferir um viés discriminatório nas declarações de ambos os oficiais, entendo que tal atitude poderá influir nas decisões futuras que eles terão que tomar como ministros do STM", alegou. "Como os ministros não podem pautar suas posições em flagrante desacordo com o texto constitucional, entendo que não devemos votar matéria dessa natureza sem os devidos esclarecimentos."
O senador lembrou que o Código Penal Militar, que considera crime a homossexualidade, não tem mais aplicação "em função da vigência da atual Constituição, que veda discriminações de qualquer natureza".
FALTA COMPETÊNCIA
Ontem, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que as declarações do general Cerqueira Filho não influenciarão o debate sobre o tema, já que o STM não tem competência para tratar do assunto. Segundo ele, o tema "homossexualidade" já está sendo discutido no ministério.
Jobim declarou que os debates em torno da homossexualidade dentro das Forças Armadas não ocorrem apenas dentro do Brasil, mas também em outros países, como os Estados Unidos. "Lá, há a política do don"t ask, don"t tell (não pergunte, não conte)", afirmou.
O ex-sargento do Exército Fernando de Alcântara de Figueiredo, que em 2008 tornou público o relacionamento com o também sargento Laci Araújo, disse que a posição do general comprova a existência de homofobia nas Forças Armadas.
Para Figueiredo, as declarações de Cerqueira Filho devem ajudar militares vítimas de preconceito e perseguição por causa de sua orientação sexual.
"Demonstra tudo o que falamos, que as Forças Armadas funcionam sob a ótica do desrespeito à dignidade das pessoas, prepotência e arrogância", disse Figueiredo, que chegou a ser preso após ter assumido o relacionamento.
O Grupo Gay da Bahia decidiu enviar carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo o veto à indicação de Cerqueira Filho. E promete protestos caso ele chegue ao tribunal. "A valentia e a capacidade de comando independem da orientação sexual, vide o exemplo de Alexandre Magno", declarou Luiz Mott, fundador do grupo, em referência ao rei da Macedônia, que liderou um exército com milhares de homens e mantinhas relações sexuais com homens e mulheres.
"A declaração destaca a posição homofóbica das Forças Armadas e o desqualifica para o cargo", opinou Maria Berenice Dias, advogada especializada em direitos homoafetivos.
COLABOROU FABIANE LEITE
Retaliação pode provocar represálias, adverte novo embaixador americano
Sergio Leo, de Brasília
"Retaliações provocam contrarretaliações e isso não é bom nem para o Brasil nem para os Estados Unidos", alertou o novo embaixador americano, Thomas Shannon, ao informar que os EUA vão se esForçar na negociação com o Brasil para atender à decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC), que considerou ilegais os subsídios americanos ao algodão. O Brasil foi autorizado pela OMC a retaliar os EUA, aumentando tarifas ou até ignorando direitos de propriedade intelectual de empresas do país, caso não haja mudança nos subsídios ao algodão.
Shannon é a primeira autoridade americana a mencionar a possibilidade de "contrarretaliações" caso o Brasil, dentro das normas da OMC, adote represálias a produtos americanos. Mas o tom do embaixador, em sua primeira entrevista coletiva, ontem, logo após entregar as credenciais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi de elogios e acenos aos Brasil. Ao mencionar o caso do algodão, ele classificou as negociações de "delicadas" e disse preferir que o tema seja tratado em detalhes pelo USTR, o equivalente a um ministério de comércio exterior.
Mais sério que o habitual e falando em português, Shannon evitou concentrar-se em temas específicos e insistiu que a relação entre Estados Unidos e Brasil "é mais que uma relação bilateral, é uma relação global". Sem descer a detalhes, discordou de uma lista de desentendimentos entre os dois governos apresentada por um jornalista, que incluía de Honduras à OMC, o Irã e a compra de caças para a Força Aérea. "Com qualquer país, especialmente entre países grandes e importantes, é inevitável encontrar pontos de divergência", minimizou, defendendo a relação entre EUA e Brasil como "aberta, flexível e respeitosa" e defendendo o esforço diplomático para resolver as divergências "sem afetar os pontos de convergência".
O diplomata, que até o ano passado era, nos EUA, o subsecretário do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental, não se recusou a comentar a crise política na Venezuela e fez sugestões ao governo Hugo Chávez: "A Venezuela está passando por um momento difícil e, em um momento de crise, é preciso abrir espaço para o diálogo político", afirmou. Ele também pediu para Chávez "não reprimir e abrir espaço para ouvir o povo venezuelano".
Shannon elogiou o papel do Brasil nas negociações sobre o programa nuclear do Irã, tema geralmente apontado como ponto de conflito entre os dois países. Garantiu que ambos os governos mantêm "diálogo intenso" sobre o assunto e que o Brasil "teve papel importante" em comunicar aos iranianos a preocupação do Ocidente com o programa nuclear e o desrespeito aos direitos humanos. Ele se mostrou cético, porém, em relação à disposição do Irã para negociar e eliminar as suspeitas de uso bélico do programa nuclear.
Em uma das poucas perguntas sobre temas bilaterais, Shannon defendeu a oferta da Boeing para fornecimento de caças à Força Aérea Brasileira (FAB), mas foi enfático ao classificar a questão como um tema de "diplomacia comercial", sem risco de danos à relação política e diplomática dos dois países. "França e Suécia são amigos e aliados dos EUA", disse, citando os países dos concorrentes da Boeing, para argumentar que a escolha de outros jatos não afetará a relação de "cooperação e segurança" entre Brasil e EUA.
"É importante notar que o governo dos EUA tomou decisões sem precedentes em termos de transferência de tecnologia (para os caças da Boeing)", insistiu o diplomata. "Isso não é só diplomacia comercial, como mostra nossa confiança no Brasil."
Depois da entrevista, diplomatas americanos comentavam o pequeno número de questões bilaterais e a grande quantidade de assuntos internacionais como sinal de mudança no nível da relação entre os dois países. Como ressaltou, aliás, o próprio Shannon, ao começar a entrevista. "A relação entre Brasil e Estados Unidos é global, os dois países trabalham em assuntos que vão além do tema bilateral", afirmou.
Ele negou que haja atritos entre os dois governos em relação à ajuda humanitária e à reconstrução do Haiti, e disse acreditar que os países da região reconhecerão o presidente eleito de Honduras, Porfírio Pepe Lobo, um fato consumado, pondo fim ao isolamento a que o país foi submetido na Organização dos Estados Americanos (OEA) após o golpe militar que derrubou o antecessor, Manuel Zelaya.
Shannon, escolhido no início de 2009 para a Embaixada dos EUA no Brasil, teve de esperar quase nove meses até vencer a resistência no Senado, onde a oposição fez críticas às suas opiniões sobre Cuba, importação de etanol brasileiro e Honduras. Ao lhe perguntarem sobre a taxa mantida pelos EUA sobre o etanol do Brasil, desconversou, defendeu a cooperação dos dois países em etanol e desculpou-se: "Eu já tive problemas com isso." Ele começou ontem mesmo sua primeira missão diplomática: a preparação para a visita da secretária de Estado, Hillary Clinton, ao Brasil, possivelmente em março.
Don’t ask, don’t tell
Klécio Santos
Direto de Brasília
As polêmicas perseguem Nelson Jobim. Além de ser confrontado no Congresso diante das declarações de um general contra a admissão de gays nas Forças Armadas, o ministro tenta negar o óbvio: a escolha dos caças supersônicos franceses.
O vazamento de que o governo já optou pelos aviões Rafale desagrada a Aeronáutica. Para tentar esvaziar o assunto, Jobim poderia se valer da mesma expressão que usou para evitar debates em torno da admissão de homossexuais na caserna: don’t ask, don’t tell (não pergunte, não diga, em português). A compra dos Rafale é uma decisão antiga que se arrasta somente porque Lula se antecipou e anunciou o vencedor antes mesmo do processo de escolha ser concluído.
Para o Planalto, é uma questão estratégica o alinhamento com a França, que envolve ainda a compra de submarinos e helicópteros. A trapalhada, porém, beneficiou o governo, que baixou os custos com a revisão das propostas. Jobim ainda teria conseguido reduzir junto a Dassault em quase R$ 4 bilhões a proposta – tudo depois que a Aeronáutica divulgou em dezembro o resultado de sua seleção, em que os Rafale ficaram em último. Apesar da preferência da FAB pelo Gripen, da Suécia, a decisão já está sacramentada. Jobim só busca uma forma de anunciar oficialmente a decisão que, neste caso, é muito mais política do que técnica.
Ontem mesmo, o novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon Jr, já deu sinais de que admite a derrota na licitação:
– Há um consenso comercial de que a compra dos caças franceses não vai afetar a nossa relação com o Brasil.
Decisão de Lula por Rafale recebe críticas da oposição
Deputados pedem que Congresso seja ouvido na compra de aeronaves
A oposição criticou ontem a decisão do governo federal de escolher o caça francês Rafale, que disputa com o sueco Gripen NG e o americano F-18 Super Hornet uma concorrência para renovação da frota militar brasileira. Deputados oposicionistas querem a participação do Congresso no processo de compra das aeronaves, apesar da prerrogativa da escolha do vencedor ser exclusivamente do Executivo.
– O ministro da Defesa, Nelson Jobim, me disse que não há previsão constitucional que obrigue o governo a ouvir o Legislativo. No entanto, lhe disse que isso seria muito importante, mesmo que a Constituição não obrigue, e ele ficou de analisar a nossa demanda, que julgou legítima – disse o deputado Raul Jungmann (PPS-PE).
O parlamentar conversou ontem por telefone com Jobim para obter informações sobre a decisão do governo.
Jungmann disse que Jobim lhe assegurou que a decisão oficial sobre os caças será anunciada após o Carnaval.
Reportagem do jornal Folha de S. Paulo de ontem dá conta de que o Brasil fechou a compra dos aviões franceses a partir de uma redução no preço das aeronaves. Os ministros Celso Amorim, das Relações Exteriores, e Jobim negaram que a francesa Dassault tivesse vencido a concorrência por ter reduzido em US$ 2 bilhões o valor total de venda dos 36 jatos requeridos pela Força Aérea, conforme publicou o jornal.
O líder do PSDB na Câmara, deputado João Almeida (BA), disse que a opção do governo brasileiro pelo Rafale é um “absurdo”.
Mesmo com indícios de que a decisão do Planalto, a favor dos franceses, está tomada, os demais concorrentes não esmorecem. Ao entregar ontem suas credenciais de embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon reforçou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a escolha do caça F18 Super Hornet da Boeing envolverá uma oferta de transferência de tecnologia “sem precedente”.
O avião francês
Fabricante: Dassault Aviation
País: França
Tipo: caça multifunção
PRÓS
- A versão oferecida ao Brasil ainda está sendo desenvolvida. Por isso, há chances para formação de consórcios para produção de peças. O F-18, da Boeing, por exemplo, é um projeto tecnológico amadurecido e, em breve, não será mais produzido – o que pode gerar futuros problemas.
CONTRAS
- Além de ser o mais caro, ainda não foi operado por nenhum outro país além da França, que o tem usado para missões no Afeganistão.
Defesa minimiza polêmica no Exército
Ministério da Defesa minimiza polêmica sobre gays no Exército
Jobim nega que declaração de general interferirá em debate no governo federal a respeito do tema
Um dia após o general-de-Exército Raymundo Nonato de Cerqueira Filho criar controvérsia ao se posicionar contra homossexuais nas Forças Armadas, o Ministério da Defesa tentou minimizar a polêmica. O ministro Nelson Jobim afirmou que as declarações não influenciarão o debate sobre o tema dentro do governo federal, porque o Supremo Tribunal Militar não tem competência para tratar o assunto. Cerqueira Filho fez as declarações durante audiência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, que analisava sua indicação ao cargo de ministro à corte.
Jobim lembrou que o debate não é exclusivo do Brasil: estende-se a outros países, como os Estados Unidos.
– Lá, há a política do don’t ask, don’t tell (não pergunte, não conte) – disse.
A afirmação do general desencadeou uma onda de protestos. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi uma das entidades que lideraram a reação. O presidente da entidade, Ophir Cavalcante, considerou “lamentável que este tipo de discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas Forças Armadas brasileiras”.
– A defesa do país tem de ser feita por homens e mulheres preparados, adestrados e treinados para este fim, independentemente da opção sexual de cada um – afirmou.
Segundo Cerqueira Filho, militares não obedecem gays. O ex-s
argento Fernando Figueiredo, conhecido no Brasil por ter assumido um relacionamento com o colega de farda Laci Araújo, reforçou as críticas:
– Isso mostra que ele (Cerqueira Filho) desconhece a história. Alexandre, o Grande, era homossexual, e a tropa obedecia. Trabalhei 15 anos nas Forças Armadas e nunca fui desrespeitado.
A polêmica começou quando Cerqueira Filho foi perguntado pelos senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Demóstenes Torres (DEM-GO) se aceitava ou não a presença de homossexuais em tropas. O general respondeu que os militares não obedecem normalmente “indivíduos desse tipo”:
– A vida militar reveste-se de determinadas características, inclusive em combate, que pode não se ajustar ao comportamento desse indivíduo.
Nos EUA
- As regras atuais exigem que militares gays mantenham sua orientação sexual em segredo, sob pena de expulsão.
- O presidente Barack Obama promete rever a medida, que precisa passar pelo Congresso. Em depoimento ao Senado, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o almirante Mike Mullen, disse que permitir que homossexuais assumidos sirvam às Forças Armadas “é a coisa certa a fazer”.
O novo rosto dos EUA no Brasil
Ao entregar ontem suas credenciais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon (D), aproveitou para fazer campanha em favor do caça F-18 Super Hornet da Boeing, na concorrência aberta pela Força Aérea Brasileira (FAB). Segundo Shannon, um eventual acordo para a compra do caça envolverá uma oferta de transferência de tecnologia “sem precedentes”. Indicado para o cargo pelo presidente dos EUA, Barack Obama, em maio de 2009, Shannon só obteve o necessário aval do Senado americano no final de dezembro passado.
Gaúchos dão início à missão Haiti
Militares de quartéis do Estado embarcaram para o Rio de Janeiro, onde receberão treinamento antes de partir para o Caribe
Ao som da música Fibra de Herói, de Guerra Peixe, executada pela Banda da 1ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, militares marchavam e bradavam um trecho da letra, “na paz ou na guerra, defende a terra contra o perigo”. A canção, que fala da bravura dos integrantes do Exército Brasileiro em sua missões, foi o hino de despedida de 138 militares de quartéis gaúchos que embarcaram no começo da tarde de ontem em Santa Maria com destino ao Rio de Janeiro.
No Rio, eles darão continuidade à preparação para uma missão de paz e de emergência: ajudar na reconstrução do Haiti, devastado por um terremoto em 12 de janeiro. No total, 301 militares do Comando Militar do Sul vão compor o 12º contingente do Batalhão de Infantaria de Força de Paz (Brabat). Desses, 40 embarcaram ontem pela manhã em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para o Rio de Janeiro, e 138 foram à tarde. A previsão era de que 150 viajassem, mas, devido à capacidade do avião, alguns foram cortados na última hora. O restante do grupo (123) aguardará a disponibilidade de aeronaves para o transporte. O deslocamento do contingente para o Haiti está previsto para a última semana de fevereiro.
Antes do embarque, a formalidade do ato militar deu lugar à emoção das despedidas. Com o filho nos braços, o soldado Alisson de Freitas Alves, santa-mariense de 23 anos, sentia um misto de alegria e tristeza. Esta é a primeira vez que ele deixa a família por tanto tempo – a permanência no país caribenho deve ser de seis meses. Alisson vai atuar no policiamento e na segurança, mas, de longe, a distância do pequeno Antônio, de nove meses, será a parte mais dura da missão.
– Vai ser difícil, mas quem tem objetivo na vida tem de fazer algum sacrifício. Quando eu voltar, ele não vai mais estar no colo e, sim, caminhando por aí – diz o soldado.
Mas nem todos tiveram a chance de se despedir dos familiares. A mulher do terceiro-sargento José Ferreira, 40 anos, não pôde ir ao aeroporto, porque estava trabalhando. O militar já participou de duas missões de paz: em Angola, em 2004, e no Haiti, em 2007.
– Uma missão é um orgulho, duas são bênçãos de Deus. Sobre a terceira, só posso falar quando eu voltar. Vou para ajudar o povo do país mais pobre das Américas – afirma o sargento.