MISSÃO DE PAZ

Conheça as histórias de duas militares da FAB que serviram em Missões de Paz

As oficiais da FAB participaram de missões da ONU no Sudão e no Sudão do Sul
Publicado: 29/05/2019 16:20
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Fonte: Agência Força Aérea, por Tenente Emília Maria
Edição: Agência Força Aérea - Revisão: Tenente-Coronel Santana

Diferenças culturais, peculiaridades de idioma, distância da família: são desafios enfrentados por aqueles que são voluntários para servir em Missões de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU). No caso da Major Intendente Luanda dos Santos Bastos, a missão teve um desafio a mais: ela foi a primeira mulher da Força Aérea Brasileira (FAB) a servir como staff officer (oficial administrativo) em uma missão da ONU.

A função dela era trabalhar na seção administrativa de um quartel-general, realizando atividades como controlar o movimento de comboios para doação de alimentos, barracas, medicamentos, entre outros. A responsabilidade dos militares era garantir a segurança desses transportes para que, por exemplo, não fossem saqueados pelos rebeldes.

Sem qualquer outro brasileiro por perto, a mais de 9,5 mil quilômetros do Brasil, ela teve que se adaptar ao trabalho e ao dia a dia em um local completamente diferente do que estava habituada. Ela integrou a Missão das Nações Unidas no Sudão (UNAMID), país do continente africano, de agosto de 2017 a agosto de 2018.

“Eu sabia que quando chegasse lá ia passar por todas as dificuldades que passei, cada dia era uma descoberta. Eu só pensava em dar o melhor de mim e não ficava pensando que era a primeira, e sim em superar os desafios, dar conta da missão. Nunca me senti pressionada por ser a primeira e torcia para que outras quisessem também ir”, conta a Major Luanda.

E o que ela desejava aconteceu: outras duas oficiais da FAB integraram missões de paz: a Major Intendente Laura Kazue Lopes Nakamura atua como Observadora Militar na Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO) desde novembro de 2018; e a Major Intendente Danielle Cristini Lara Espinola Nunes serviu como staff officer na Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS).

Para a Major Lara, que acabou de retornar ao Brasil depois de um ano no exterior, a missão foi transformadora. “O ganho pessoal em uma missão assim é muito maior do que qualquer quantia que se pague. Deixamos nossas vidas por um ano e paramos, refletimos, revemos valores, percebemos como geralmente nos preocupamos com coisas pequenas e como há pessoas em péssimas situações e que, ainda assim, estão sorrindo”, diz.

“Entramos em contato com outras culturas e diferentes formas de trabalhar, tendo que aprender a lidar também com isso. Assim, aprendemos a ser mais tolerante e trazemos isso para nossa vida profissional e pessoal”, complementa a Major Luanda.  

A Major Lara concorda que a experiência muda o olhar em relação ao outro. “Aprendi também a ser mais tolerante, a ver que cada pessoa tem algo de bom e temos que saber valorizar isso. É um exercício diário que nos ajuda a ver o outro com mais humanidade. E trazemos isso para o nosso trabalho agora”, explica.

Ela teve contato com militares de diversos países, como Paquistão, Bangladesh e Índia, além de alguns compatriotas, que, no seu entendimento, apresentam desempenho de destaque. “Os brasileiros são excelentes profissionais e muito bem vistos nas Missões de Paz: somos engajados, comprometidos, temos visão humana e somos flexíveis, o que nos diferencia de militares de outros países. Além disso, o brasileiro é muito querido”, resume.

Comprometimento

A Major Luanda trabalhava sempre dentro de um quartel e não tinha contato com a população. No entanto, seu interesse em saber se a ajuda fornecida chegava ao seu destino e em conhecer a situação daqueles que lá viviam fez com que ela se aproximasse dessas pessoas. “Pedi àqueles que trabalhavam em setores específicos, como os responsáveis por projetos de construção ou reformas de escola, por exemplo, para participar das inaugurações das obras, das doações de alimentos e de material escolar. Apesar de não estar trabalhando diretamente nesta área, buscava meios de ter essa proximidade”, conta.

A Major Lara também procurou conhecer a realidade das pessoas com as quais estava contribuindo. “Meu trabalho também era apenas dentro do quartel. Então, o contato com a população acontecia em horários fora do expediente, quando conseguia me organizar para visitar uma vila ou um orfanato, por exemplo. Dessa forma, pude ver como existe violência contra as mulheres e como a ajuda que vem das diversas agências e organizações é importante”, lembra.

Mulheres na ONU

Segundo as militares, a ONU tem buscado incluir mais mulheres nas Missões de Paz para aumentar o equilíbrio de gênero porque entende que nenhuma sociedade funciona apenas com homens realizando processos de negociação de paz.

“Existe uma necessidade de diversidade de visões nesses processos para garantir que toda a população seja atendida", pontua a Major Luanda. “E também é uma forma de estimular a valorização das mulheres nessas sociedades. Nesse contexto, eu estava em um país muçulmano e dirigia um micro-ônibus. Quando as mulheres me viam dirigindo, era perceptível a surpresa e a admiração delas, percebendo que também poderiam estar fazendo o mesmo. A nossa participação quebra paradigmas e estimula que busquem melhorar suas comunidades”, completa.

“Todos têm um papel na sociedade e nós também o temos como mulheres. Por isso, a ONU está expandindo nossa participação”, complementa a Major Lara.

Peacekeepers (Mantenedores da Paz)

As oficiais da FAB têm em comum a experiência marcante de terem contribuído em Missões de Paz da ONU e o entendimento de que fizeram a diferença em algumas vidas.

“Quando coloquei meu nome como voluntária para a missão, a primeira coisa que pensei foi naquela visão humanitária que temos da ONU, de pessoas sendo ajudadas. Quando fiz o curso, mais de um ano depois, descobri que não seria esse o meu papel como militar. Mas acredito que quando vamos para uma missão como essa focados em tentar fazer o bem e realmente buscar a paz, independentemente da função em que trabalhemos, somos peacekeepers”, resume a Major Lara.

“A visão que as pessoas têm, em geral, do peacekeeper, é do militar em meio à população. Mas, não é só isso, tem todo um trabalho de suporte até chegar naquele momento”, completa a Major Luanda.

Ela explica que a missão da ONU no Sudão está próxima de acabar e se orgulha de sua contribuição. “Quando encerrei minha participação, algumas famílias que haviam fugido de suas vilas por conta do conflito estavam começando a voltar. Então, é muito bom perceber que o trabalho que fazemos, por mais distante que seja da população, tem um efeito sobre essas pessoas e dá a elas uma possibilidade de recomeçar”, emociona-se.

“Esse tipo de missão é um choque de realidade que faz você refletir sobre a sua vida e sobre as coisas que antes valorizava. Eu voltei muito diferente. Se me perguntam se eu retornaria, digo que voltaria na hora. Fui feliz, superei desafios a cada dia, tive aprendizados e senti que meu trabalho era para um bem maior. Sinto-me muito orgulhosa e realizada”, finaliza a oficial.

Dia do Peacekeeper - A ONU instituiu o dia 29 de maio como o Dia Internacional dos Peacekeepers das Nações Unidas.

Fotos: Sargento Bianca Viol e Soldado Thallys Amorim/CECOMSAER e Arquivo Pessoal

Colaborou: Tenente Jornalista Carlos Balbino

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