AEROVISÃO

De volta ao Haiti

Infantaria da Aeronáutica retorna à Missão de Paz da ONU. Este será o 9º pelotão enviado pela FAB ao país caribenho
Publicado: 05/11/2016 08:00
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Fonte: Agência Força Aérea, por Ten Flávio Nishimori

Novo batalhão brasileiro embarca para o Haiti em dezembroApós um ano sem participar da Missão de Paz no Haiti, militares de Infantaria da Aeronáutica da Força Aérea Brasileira (FAB) voltam a figurar no contingente de tropas brasileiras naquele país. Vinte e seis militares do Batalhão de Infantaria da Aeronáutica Especial de Recife (BINFAE-RF) embarcam para Porto Príncipe, capital haitiana, no início de dezembro.

“Essa missão desperta muita motivação na tropa, pois é a oportunidade para os profissionais colocarem em prática o aprendizado adquirido ao longo da carreira”, ressalta o comandante do BINFAE-RF, Major de Infantaria João Francisco da Silva Júnior.

Os militares da FAB vão compor o 4º Pelotão da 2ª Companhia de Fuzileiros de Paz da Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (MINUSTAH). “A princípio nossa atuação será em Porto Príncipe, mas poderemos ser empregados em outras localidades, como City Soleil”, explica o Comandante do Pelotão da Aeronáutica, Tenente de Infantaria Vinícius Duarte da Silva Fonseca.

Trajetória

A trajetória da Infantaria da FAB no Haiti iniciou-se em fevereiro de 2011, quando 27 militares do BINFAE-RF colocaram os pés pela primeira vez no país caribenho. O Cabo Severino Alexandro Gomes esteve nessa missão e volta àquele país depois de seis anos.

“Quando cheguei ao Haiti me deparei com um país ainda devastado pelo terremoto, com pessoas pedindo comida e água e andando descalças em meio a um sol escaldante”, relembra o militar. “Era uma situação muito triste. Havia muita pobreza. As condições agora devem ter melhorado em função do trabalho desenvolvido ao longo desses anos pelas Forças Armadas”, aposta o Cabo Alexandro.

Militares brasileiros são chamados de bon bagay pelos haitianosRequisitos

Ao todo, cerca de 250 militares de oito pelotões da FAB se revezaram até agora nas atividades desenvolvidas nas ruas de Porto Príncipe realizando patrulhas a pé e motorizada, check point, escolta de autoridades e comboios.

Para integrar a missão existem vários pré-requisitos. A primeira condição é o voluntariado. Depois, os militares passam por uma bateria de testes, incluindo avaliação física, psicotécnico e inspeção de saúde. A partir da definição da equipe, inicia-se um processo de nivelamento de conhecimento junto ao Exército Brasileiro. O treinamento conjunto visa à troca de informações na parte operacional, com instruções sobre regras de engajamento, garantia da lei e da ordem, tiro e patrulhas. A formação dos oficiais é complementada com a realização de cursos no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), localizado no Rio de Janeiro.

Parto

Desde que assumiu a liderança do comando militar da MINUSTAH, em 2004, as tropas brasileiras sempre desfrutaram de uma boa relação com o povo haitiano. E isso se deve principalmente às características dos militares brasileiros, de sempre estarem dispostos a ajudar. Movidos por esse espírito de solidariedade, os soldados da FAB Demorvã Diego Canton e Kauê Correa dos Santos Frois realizaram, em 2012, um parto durante uma patrulha noturna. Uma jovem haitiana, já com contrações, e seu marido procuravam por auxílio em uma das avenidas escuras de Porto Príncipe. Os primeiros atendimentos ocorreram no local e o pequeno Junas nasceu às 5 horas daquela quarta-feira (18/07/2012), na viatura.

O ex-soldado Demorvã deu baixa da FAB em 2013, após o retorno ao Brasil no final do ano de 2012. Mesmo passados três anos, ele não esquece da missão mais emocionante de sua vida. “Lembro-me como se fosse hoje. Nunca imaginei passar por uma situação como essa. Estávamos preparados para prestar esse auxílio. Foi inesquecível”, diz o ex-militar.

Experiência

Um dos grandes legados da missão no Haiti, ou seja, a experiência real de contato direto com a população, tem sido utilizado em grandes eventos. Nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, por exemplo, foi criado, pela primeira vez na FAB, o Batalhão de Infantaria da Garantia da Lei e da Ordem.

O contingente foi composto por militares de diversas localidades do País. Da região Norte incorporaram efetivos de Boa Vista (RR), Porto velho (RO), Manaus (AM), Alcântara (MA) e Belém (PA). Do Sudeste e Centro-Oeste, militares de São Paulo (SP), Pirassununga (SP), Guaratinguetá (SP), São José dos Campos (SP), Anápolis (GO), Brasília (DF) e Campo Grande (MS). Já do Sul, militares de Canoas (RS), Santa Maria (RS) e Florianópolis (SC). Entre os dias 24 de julho e 19 de setembro, os cerca de 500 infantes participaram de patrulhamento nas ruas da capital fluminense e também nos dois saguões do Aeroporto Internacional Tom Jobim.

“Muitos integrantes do Batalhão já estiveram no Haiti e tiveram a chance de colocar em prática a experiência adquirida naquela missão de paz. Essa operação no Rio de Janeiro foi importante para aperfeiçoarmos doutrinas e procedimentos”, afirma o Coronel de Infantaria Alexandre Okada, comandante do Batalhão de Infantaria GLO.

Experiência no Haiti serviu para GLO durante OlimpíadaAlém de todo o ganho operacional, a experiência no Haiti também deixou outras marcas em quem participou da missão. Viver, mesmo por um curto período de cerca de seis meses, em um país com graves problemas de infraestrutura, distante da família e como uma cultura totalmente diferente trouxe novos sentidos de vida a muitos militares. É o caso do Sargento Thiago Torres de Moura. Ele esteve no Haiti em 2011, como integrante do BINFAE-MN. A esposa estava grávida na época e a filha nasceu quando o militar estava engajado na missão.

 

“Certamente foi uma experiência muito marcante poder ajudar o povo haitiano. A gente passa a valorizar as pequenas coisas do dia a dia nas quais antes nem prestávamos atenção. Acredito ter voltado melhor como pessoa após essa estada no Haiti. Um aprendizado único”, explica o Sargento Thiago.

Bon Bagay

 

A relação dos militares brasileiros que compõem a MINUSTAH com os haitianos sempre foi amistosa. Logo que chegaram ao país, passaram a ser chamados, pelos nativos, de bon bagay – termo em crioulo que significa ‘gente boa’.

Furacão Matthew

Um fato novo mudou o cenário que será encontrado por esses militares quando chegarem ao Haiti. No dia 4 de outubro, o furacão Mattew - que também atingiu outros países da América Central e os EUA - passou pelo país deixando um rastro de aproximadamente mil mortos e milhares de desabrigados. Alguns dos militares brasileiros que já estavam no Haiti à época do furacão, do Exército e da Marinha, foram deslocados da capital, Porto Príncipe, para cidades mais destruídas, ao sul. A velocidade do vento chegou a 230km/h e ondas de mais de 3 metros de altura atingiram o litoral. As autoridades consideram essa a pior crise humanitária vivida pelo país desde o terremoto, em 2010.

Sargento Vanessa é a primeir mulher da FAB a compor a MINUSTAHFAB tem primeira mulher a integrar tropa em missão de paz

A Sargento Vanessa Eher Caetano, especialista em Básico em Eletricidade e Instrumentos (BEI), faz história. Ela é a primeira mulher da Força Aérea Brasileira a integrar tropa em missão de paz da ONU. A Sargento Vanessa faz parte do contingente brasileiro, formado também por militares da Marinha e do Exército, na Missão das Nações Unidas para Estabilização do HAITI (MINUSTAH). Na FAB, mulheres já tinham participado de missões de paz em funções de apoio, mas nunca na tropa em si.

O papel da Sargento Vanessa é “Auxiliar do Oficial de Ligação da FAB” e ela atua especialmente na área de logística. Antes de assumir a missão, a militar realizou alguns cursos, entre eles, o curso de cargas perigosas e curso de operador de equipamentos mecanizados. Além de ter trabalhado no Sistema do Correio Aéreo Nacional (SISCAN) por oito anos.

Segundo a sargento Vanessa, é uma responsabilidade grande ser a primeira mulher da FAB a integrar tropa em missão de paz. “Apesar da responsabilidade estou feliz de representar o quadro feminino e poder abrir portas para que, cada vez mais, as mulheres possam desempenhar todos os tipos de função na Força Aérea”, ressaltou.

Essa e outras reportagens estão disponíveis na nova edição da revista Aerovisão: